Ensaio: (Mais) Uma crítica sobre a Teoria das Coisas na arqueologia e seu pseudomaterialismo: Desdobramentos teóricos e políticos.

Ensaio:

(Mais) Uma crítica sobre a Teoria das Coisas na arqueologia e seu pseudomaterialismo:

Desdobramentos teóricos e políticos.

Diego Chermaut Emmerich

Rio de Janeiro, 2024

(Texto escrito para a avaliação da disciplina do mestrado em arqueologia do Museu Nacional)

Uma breve introdução.

O que aqui é chamado de Teoria das Coisas, pode ser compreendido como um segundo movimento teórico, ou como um desdobramento dentro do próprio pós-processualismo, que em alguns momentos e em alguns autores, pode ser entendido como uma forte crítica, ou até mesmo um rompimento, com as primeiras produções teóricas que caracterizaram o pós-processualismo, que são muito calcadas no simbolismo, no individuo e em aspectos ideológicos das sociedades estudadas, quase que colocando a materialidade antropizada (chamada de cultura material) como um reflexo do “mundo das ideias”. Segundo Fowles (2016), ao menos em parte, a Teoria das Coisas surge como uma resposta ao enfado gerado por essa abordagem pós-processualista inicial. Mas também porque a Teoria das Coisas se torna um lugar seguro, pois redireciona o foco de estudo dos sujeitos humanos para os objetos. Agora o objeto de estudo são “as coisas”, assim os pesquisadores se veem livres das fortes críticas pós-coloniais que sofrem por ter como objeto de estudo “sujeitos humanos”. Como afirma Fowles (2016) as coisas surgem como os “sujeitos perfeitos da antropologia” pois podem ser alvo de todo tipo de manipulações, conceituações, objetificações, sem mobilizar maiores paixões. As “coisas” se tornaram um refúgio epistemológico na antropologia.

A Teoria das Coisas enfatiza o protagonismo das “coisas”, e esse novo “ser” ganha um novo estatuto ontológico, indo além da noção de artefato como materialidade antropizada em seus atributos físicos, pois essa noção estaria muito aferrada a noção positivista e aristotélica conhecida como hilemorfismo1, que seria a noção de que artefatos, e demais objetos materiais são compostos de “forma e matéria”. Segundo a corrente teórica conhecida como Arqueologia Simétrica, essa abordagem hilemórfica seria reducionista, fundamentalmente dualista, e desconsideraria as diversas ontologias mundo afora. Teoria das Coisas, Arqueologia Simétrica, e Virada Ontológica, são todas oriundas do pensamento Pós-humanista e Pós-Moderno.


Os riscos da negação da objetividade científica e do conceito de verdade.

Quando falamos de ontologias diversas, estamos remetendo diretamente à chamada Virada Ontológica, que nada mais é que a crítica severa/negação ao que eles chamam pensamento ocidental positivista moderno. A Virada Ontológica destitui a objetividade científica, a fazendo perder seu estatuto de “explicadora objetiva dos fenômenos”. Quais fenômenos? Apenas os fenômenos sociais e humanos. A virada ontológica não se atreve a deslegitimar a objetividade científica dos raios-x, nem das vacinas, nem do calculo estrutural do engenheiro.

Quando se trata de ciências médicas, por exemplo, não se quer substituir a Ciência com “C” maiúsculo, por ciências, no plural e com “c” minúsculo. O que isso quer dizer? Quer dizer que apenas nas ciências sociais e humanas a Virada Ontológica e a Simetria (sua vertente dentro da arqueologia), quer a equalização da ciência moderna às demais ontologias enquanto explicadoras dos fenômenos sociais. Ou seja, as mais variadas formas de se explicar fenômenos sociais presentes nas mais variadas ontologias das mais variadas sociedades mundo afora, são tão verdadeiras e objetivas, quanto qualquer ciência social ou escola teórico-filosófica de vertente moderna.

Dado o que foi escrito até aqui, e olhe que foi bem pouco, já se faz necessário uma defesa, visto que, quando se crítica as formas como se buscam a legitima e necessária emancipação dos povos oprimidos, muitos tendem a interpretar a crítica às formas de lutas, como uma crítica aos objetivos que se almejam alcançar com as lutas. Claro que reconhecemos e criticamos o caráter racista e colonialista do pensamento Moderno, que se funda na Europa, no contexto de transição do modo de produção Feudal ao modo de produção Capitalista. Essa produção intelectual Moderna foi necessária à legitimação da burguesia ascendente e tem um inequívoco caráter de classe. Em seu início, essa produção era sim ilustrada, científica, iluminista, racional, mas, logo a burguesia chega ao poder, essa mesma intelectualidade se mostra reacionária e até mesmo “anticientífica”, justamente porque o desvelamento da realidade social, necessário para derrubar nobreza e o clero, agora é um perigo a nova classe dominante. Nosso momento atual de produção intelectual é a continuação, em maior ou menor grau, dessa “ciência anticientífica”, que em Lukács se chama de Decadência Ideológica da Burguesia2, com muitas produções intelectuais apenas servindo como véu sobre a realidade socioeconômica, minando a capacidade de alterá-la. Será que a Virada Ontológica não cumpre a esse propósito? Em certa medida afirmamos que sim.

Desculpem-nos, a nossa tentativa de defesa acabou se tornando mais uma crítica à Virada Ontológica, deixem-nos expressarmos melhor. Concordamos com muitas das críticas da Virada Ontológica endereçadas ao pensamento Moderno, e em como essa ciência moderna serviu sim ao colonialismo, e hoje serve ao imperialismo e a dominação econômica do capital sobre os países pobres, e principalmente sobre a classe trabalhadora de TODO o mundo. E a produção intelectual e científica contemporânea é instrumento fundamental para isso. Porém, os marxistas (que também são criticados pelos adeptos da virada ontológica e do decolonialismo, como se também fossem adeptos de uma ciência moderna positivista eurocêntrica) inauguraram a crítica ao pensamento Positivista Moderno de maneira muito sagaz, mordaz, ácida e contundente, e pelo viés classista, ainda no século XIX, continuando de maneira muito profícua no século XX e XXI. Porém, a profundidade da crítica e da produção marxista é negligenciada pela maior parte dos críticos a Modernidade, e quando a utilizam, partem de pontos selecionados, sem aprofundar nas bases teórico filosófica e desconsideram as várias contribuições das várias correntes marxistas (MCGUIRE, 2021, p.2).

Essa dominação do capital se abate sobre os povos ditos “tradicionais” de maneira peculiarmente trágica. Os indígenas e seu modo de vida, ou melhor, seu modo de produção, são verdadeiros entraves ao avanço do capital, pois não permite que o capital os assimile de maneira pacífica, para os transformar em força de trabalho, ou em mercado consumidor. E suas terras, por estarem protegidas (ao menos as homologadas), não podem ser compradas ou vendidas, estando fora do alcance da “mão invisível” do mercado.

Mas é claro que essa “incompatibilidade” com o mercado, não os protege da mão, agora sim, muitíssimo visível, que puxa o gatilho nos confrontos com garimpeiros e grileiros de terras. Sinceramente, não vejo como a adoção, por parte da academia (e da organização política), do uso de ontologias diversas para explicar a realidade a partir de “outras cosmovisões” possam ajudar a compreender e a fazer o enfrentamento a todo tipo de violação perpetrada sob a égide dos interesses materiais do capital. Não vejo como isso seja possível, simplesmente pelo fato de que poder material se depõe APENAS com poder material. Parafraseando Hermann Hesse em o Lobo da Estepe (1955), não podemos ser sonhadores e achar que vamos lutar apenas usando a filosofia (ou cosmovisões), é preciso ter bala no cano. Dizem que ideias são imunes a balas, isso é bem verdade, mas quem a expressa não! É necessário ter capacidade de enfrentamento, senão é massacre, e sinceramente, não quero saber de mais mártires libertadores. A lista entre os povos indígenas e campesinos é imensa, isso é triste.

Precisamos compreender objetivamente como se dá a dominação, exploração e destruição dos modos de vida dos povos “tradicionais”. A quem ou a quê, creditamos esse fenômeno? Como ele se dá, e como podemos atuar sobre ele de maneira efetiva3? É necessário ter a clareza que isso responde diretamente a interesses de acumulação privada do capital, e que isso está fundamentalmente e irremediavelmente calcado no direito de propriedade privada (dos meios de produção), a pedra fundamental do capital. Toda crítica que prescinda da compreensão de que o poder político (logo ideológico) emana dos meios de produção, e que no mundo capitalista, esse poder político está hegemonizado nas mãos da minoritária classe burguesa (detentora dos meios de produção), será inevitavelmente uma crítica infértil, quando pior, uma crítica que, por conta de não conseguir (ou não querer) identificar o verdadeiro inimigo, aponta suas armas contra outros grupos explorados. O homem branco civilizado se torna o inimigo dos indígenas, e nessa abordagem, o trabalhador explorado é tão algoz dos povos indígenas, quanto o acionista da empresa de mineração. É a luta de todos contra todos, que estão embaixo, e não a luta dos de baixo contra os de cima. Isso é muito útil ao capital, melhor ainda se “empoderar” uma pessoa negra ou indígena a uma posição social superior, isso acalma os ânimos contra o sistema, é a tal da representatividade: agora temos uma pessoa negra ou indígena na posição de detentor dos meios de produção. Agora ela pode promover a exploração de maneira muito mais democrática e representativa.

Multivocalidade, simetria, relativismo epistemológico, subjetivismo, individualismo são características de abordagens insuficientes para se fazer um desvelamento das formas de dominação do capital, e tão pouco contribuem para a formação de um bloco coeso para fazer seu enfrentamento, pois fragmenta os oprimidos e explorados em frações com disputas intermináveis, mas sempre sob as regras do capital e sua ideologia, nunca as superando radicalmente. Essas formas de disputas que colocam que “empoderamento” é ocupar posições sociais aburguesadas, não fere o capital, na verdade o mantém. E talvez seja isso que realmente se busque em muitos movimentos como esses.

Importante notar que os povos e suas cosmovisões, e todos os segmentos da sociedade estão sendo disputados constantemente pela ideologia liberal hegemônica. Não há vácuo de poder. Por conta disso, o ideário liberal burguês permeia muitos movimentos decoloniais, antirracistas, feministas etc. A própria Teoria Decolonial é permeada de idealismo, subjetivismo, relativismo e irracionalismo, e possuí entre seus principais teóricos, figuras assumidamente antimarxistas, como Edgardo Lander, Santiago Castro Gómez, Ramón Grosfoguel e Walter Mignolo, que consideram o marxismo como uma das grandes narrativas ideológicas da modernidade, ao lado do cristianismo e do liberalismo, e todas igualmente eurocêntricas e nocivas para os povos latino-americanos (ANDRADE, 2024). Se temos um projeto de nação livre do imperialismo, da exploração da mais-valia, e a favor da autodeterminação dos povos e garantia de seus direitos, não podemos nos furtar de disputar ideologicamente esses segmentos da sociedade. Isso se dá através do enfrentamento às correntes teóricas de verve liberal, subjetivista, individualista e idealista (cosmovisão do capital).

Outro ponto passível de crítica na ideia de uma multivocalidade dos “saberes”, de uma multivocalidade de cosmovisões, desta horizontalidade do discurso de autoridade, onde se nega a ideia de autoridade científica, é que, se passamos a defender a ideia de que devemos ouvir a todos, e que não devemos fazer uma produção intelectual assentada em princípios teóricos filosóficos de busca da verdade, pois a verdade agora é relativa a cada povo (e sua cosmovisão), e pior, as vezes defendida que é relativa a cada indivíduo4. Isso abre precedentes verdadeiramente perigosos, que colocam em cheque os ideais de democracia, mesmo a democracia liberal burguesa, e principalmente, coloca em cheque a possibilidade de emancipação da classe trabalhadora e dos povos oprimidos. Pois agora, nos escombros da fragmentação da objetividade, da verdade, e da capacidade de unificação da classe trabalhadora, floresce o individualismo, o solipsismo, o pensamento pequeno-burguês, o liberalismo, e por fim, o fascismo. Sim, o fascismo, porque a classe trabalhadora, submetida massivamente a esse ideário liberal, perdeu a capacidade de enfrentamento contra a burguesia, que agora avança a passos largos, aumentando seu lucro a partir da maior exploração dos trabalhadores e dos modos de vida dos povos “tradicionais”. Trabalhadores esses que se indignam com essa situação, porém, com esse ideário liberal acachapante e a desarticulação da classe trabalhadora, ele acaba por adotar como saída, um ideário fascista. Esse fascista, nada mais era, que o liberal, porém, o que se mantém intocado e protegido, são os interesses da burguesia.

Pós-humanismo, fetichismo da mercadoria e reificação do homem.

A arqueologia simétrica é em essência uma corrente pós-humanista que advoga a favor da retirada do homem do centro do processo de produção do conhecimento, admitindo a existência de outros seres, que gozam do mesmo estatuto ontológico que o ser humano, como animais, objetos ou “coisas”, e entidades metafísicas. Segundo a Simetria, esses seres não-humanos executam performances no seio da sociabilidade e possuem agência para além da ação humana sobre eles.

Fico muito receoso que em um mundo capitalista, onde a fetichização5 da mercadoria ganha contornos cada vez mais elaborados e eficazes, e a reificação6 do homem segue a passos largos, destituindo-o de massa crítica, alienando-o, reificando-o. E bem nesse cenário dramático atual, surge como novidade, uma corrente simétrica que coloca as “coisas” como equivalente ao ser humano. Temos até autores que chegam a falar que os humanos estão escravizando os objetos e os submetendo ao infortúnio de serem úteis e chama os demais pesquisadores a se unir em defesa das “coisas” como se elas fossem membros subalternos e silenciados pelos pesquisadores antropocêntricos e humanistas (OLSEN, 2003, 2013). Como falar para os descendentes de pessoas escravizadas, que seus antepassados escravizavam os seus grilhões? Não me parece apropriado, nem objetivamente verdadeiro. Como estudar a distribuição e consumo da mercadoria inglesa no Brasil a partir dessa abordagem pós-humanista, que, para não ferir “o existir” desses seres não-humanos (mercadorias) e não “invisibilizar” a agência que elas tem sobre os seus consumidores, alço-os à categoria ontológica similar a dos humanos. Se isso não é a fetichização da mercadoria e a reificação do homem, o que é então? As implicações teóricas e políticas dessas abordagens são claras se criticadas por uma abordagem marxista.

Em um mundo marcado pela brutal desigualdade social e pobreza, que é precisamente a falta de acesso a recursos materiais e seu livre usufruto, onde temos bilhões de pessoas pobres mundo afora buscando desesperadamente acesso a bens materiais ÚTEIS para minimizar seu sofrimento e melhorar sua qualidade de vida, surge no horizonte da produção intelectual e política uma corrente que diz que as pessoas estão escravizando as coisas e que deveríamos libertá-las? Além de ser uma pauta subjetivista, liberal e idealista, deslocada da realidade mundial, ignora a luta de classes, tanto na produção intelectual, quanto no cenário socioeconômico mundial. Eu, como pobre, morador e estudante de escola pública de zona rural, cotista na graduação, e agora bolsista na pós-graduação, quero mais é que as pessoas tenham acesso a mais recursos materiais e as “coisas”, e as “escravizem” o quanto lhes aprouver.


Considerações finais.

De um modo geral, os pós-humanistas e os defensores da Teoria das coisas, ficam obcecados como as mercadorias, que eles chamam de “coisas”, dominam a vida humana, a subjugando, e adotam uma abordagem pseudomaterialista7 (pois não deixam de romper com uma proposição idealista e subjetivista, ao dotar as coisas quase que de uma alma) ao afirmar que o mundo material é ontologicamente simétrico ao mundo humano.

Porém, eles estão confundindo a “dominação das coisas” com a dominação de uma classe social sobre a outra. Não é o celular que têm “agência” e escolhe nos “controlar e dominar”, mas quem efetivamente nos controla é a classe burguesa, que ao controlar a produção de um celular, o faz para obter lucro e poder financeiro, e usa o mesmo celular como ferramenta ideológica de manutenção da ordem capitalista vigente. As mercadorias (ou as “coisas”) no capitalismo são produzidas sob o domínio de uma classe, e utilizadas para manter subjugada a classe dominada. Então sim, são os humanos que controlam as “coisas”, a questão essencial é: qual classe está dominando a produção destas “coisas”? Essa pergunta não parece importar ao pesquisador tributário da “teoria das coisas”. Parece haver um esforço por ocultar a luta de classes.

Muito justas são as preocupações que autores como Latour, Tim Ingold e Hodder têm com o futuro do planeta, a ecologia e o consumismo, mas, por estarem alheios a questão classista e verdadeiramente materialista, acabam por advogar um quase franciscanismo, como podemos ver nesta afirmação de Ian Hodder: “hoje talvez precisemos nos levantar novamente contra as tecnologias modernas que destroem vidas e criam pobreza e miséria em escala global” (BASTOS, et al 2020, p.132). Interessante que essa afirmação faz parecer que as tecnologias são entes animados dotados de moral e vontade. Por isso dizemos que estes autores estão a serviço do capital e do ocultamento da realidade objetiva. As tecnologias objetivamente não são entes animados, as tecnologias (realizadas sob a forma de meios de produção) estão objetivamente sob domínio da classe burguesa, que as utilizam como ferramenta de exploração da classe trabalhadora, mas isso parece não ter tanta relevância para Ian Hodder. Será a tomada dos meios de produção das mãos da burguesia, justamente o que redirecionará a riqueza às mãos da classe trabalhadora. Pleitear a destruição das riquezas (tecnologias) é algo infantil, inconsequente, e muitíssimo cruel com os bilhões de miseráveis que precisam desesperadamente acessar essas tecnologias.

Espero que tenha ficado claro que as tecnologias não são boas nem ruins, elas estão sob o domínio de uma classe, a classe burguesa, pleiteamos que elas estejam sob o domínio de quem as produz: a classe trabalhadora.

Parece-nos que agora se estende às criações materiais da modernidade o que ocorre com o racionalismo científico moderno: o pensamento pós-moderno, depois de atacar as bases da racionalidade moderna, quer atacar as criações materiais modernas. Isso é impressionante.

O que queremos mostrar com esse texto é o fato de que as produções teóricas estão sempre inseridas em um cenário político-ideológico mais amplo, e são por eles influenciados. Por isso essa discussão se torna pertinente para a produção teórica, mesmo que trate sobre povos do passado, como o que é feito pela arqueologia. Pretendemos aqui mostrar que as concepções políticas de autores deste momento de refluxo do pós-processualismo, como Olsen, Hodder, Latour, Ingold, entre outros, possuem um caráter liberal e burguês, e estão definitivamente expressos em suas obras, e tem implicações políticas (para a forma de luta política contemporânea) e teóricas (uma leitura do passado carregando-o de idealismo e subjetivismo burguês), que esperamos terem sido demonstradas aqui.

Notas:

1Segundo Aristóteles todas as coisas da natureza são compostas de matéria e forma, e é isso que se chama hilemorfismo. A matéria é um substrato universal de potencialidade que só existe quando se une a uma forma, que a torna um tipo de matéria específico. A forma de uma coisa é o seu ato, enquanto a matéria é a sua potência. (FASBAM, 2017)

2“A categoria Decadência Ideológica oferece importantes elementos para a compreensão das ideologias que se propõem neutras e antiontológicas, presentes no pensamento social com seus apelos ao fragmentário, ao efêmero e, principalmente, ao esquecimento das análises sobre a luta de classes, o trabalho alienado, a propriedade privada dos meios fundamentais de produção, a revolução social” (LARA, 2013).

“A decadência ideológica surge quando as tendências da dinâmica objetiva da vida cessam de ser reconhecidas, ou são inclusive mais ou menos ignoradas, ao passo que se introduzem em seu lugar desejos subjetivos, vistos como a força motriz da realidade” (LUKÁCS, 1968).

3Por socioteleológico em Lukacs (1984): o por teleológico parte de uma abstração feita a partir de uma situação material concreta que está posta diante do indivíduo, e da qual ele a transforma mediante a apreensão das características e propriedades desse fenômeno real e concreto, pois só a partir da real apreensão do fenômeno que se pode ter a capacidade de transformá-lo de maneira consequente e teleologicamente direcionada. Isso vale para um fenômeno material concreto (por teleológico) quanto social (por socioteleológico). Ou seja, o fenômeno socioeconômico que permite a exploração e destruição dos modos de vida dos povos tradicionais só poderá ser alterado de maneira consequente e efetiva em favor dos oprimidos, se conseguirmos compreendê-lo de maneira objetiva, ou o mais objetivamente possível.

4Ciro Flamarion Cardoso (1999) discorre sobre a epistemologia pós-moderna, e apresenta fortes críticas a seus aspectos fundamentais, onde um deles é justamente a crítica pós-moderna a ideia de unidade, em favor de um ideal de pluralidade. Segundo Cardoso, os pós-modernos sempre fazem um esforço por mostrar que onde víamos uma unidade, na verdade é algo plural. Ele segue dizendo “vivemos, atualmente, uma inflação ou excesso do ego, da individualidade […] O indivíduo, neste fim de século, quer ser um mundo em si, interpretar a informação a que tem acesso por si e para si mesmo […] aquele que nega a unidade e proclama a pluralidade; do mesmo modo que é o fundamento da “história em migalhas”, de se querer opor “histórias”, no plural, a qualquer “história” holística.

5No marxismo, a fetichização da mercadoria é o processo ao qual a mercadoria ganha “alma” e se “humaniza”, e se torna o centro das relações sociais. A mercadoria no capitalismo é o ser que ganha direitos iguais ou superiores ao homem.

6Junto ao processo de fetichização da mercadoria ocorre o processo de reificação, onde o homem, despojado dos meios de produção, tem apenas o seu corpo e sua força de trabalho para vender e ganhar seu sustento. Ele vende sua mão de obra no mercado de trabalho, se tornando uma mercadoria precificada. Alienado do fruto do seu trabalho, e possuindo apenas sua mão de obra para se submeter ao mercado de trabalho, ocorre a sua “coisificação” sendo rebaixado ao status de mercadoria, ou seja, sua reificação.

7Usamos aqui o termo pseudomaterialismo, por compreender que a abordagem simétrica da teoria das coisas não é, de fato, materialista, se esmiuçada a partir do Materialismo Histórico-Dialético. Evitamos o uso do termo neomaterialismo como em McGuire (2021) porque achamos que se trata, de fato, de um pseudomaterialismo.


Referência Bibliográfica:

ANDRADE, Aline R. Críticas e limites do decolonialismo: Uma leitura sobre marxismo, antimarxismo e práxis. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal da Integração Latino-Americana, Instituto Latino-Americano de Economia, Sociedade e Política, Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais. Foz do Iguaçu - PR, 2024.

BASTOS, M. T; FERREIRA, L. M; HODDER, I. Isso não é um Artigo: Dialogando com Ian Hodder sobre Virada Ontológica em Arqueologia. Revista de Arqueologia, (33): 2, 2020, 118-134.

CARDOSO, C. F. Epistemologia pós-moderna, texto e conhecimento: A visão de um historiador. Revista Diálogos, v. 3, p. 1–28, 1999.

FASBAM. Aristóteles, forma e matéria. in: Blog de Filosofia, 2017. Disponível em: <https://fasbam.edu.br/2020/07/17/aristoteles-forma-e-materia/#:~:text=Para%20Arist%C3%B3teles%2C%20a%20mat%C3%A9ria%20%C3%A9,Adicione%20aos%20favoritos.>. Acesso em: 6 de jan de 2024.

FOWLES, S. The Perfect Subject (postcolonial object studies). Journal of Material Culture 21: 1, 2016, 9-27.

HESSE, Hermann. O Lobo da Estepe. Editora Record, Rio de Janeiro, 1955.

LARA, Ricardo. Notas lukacsianas sobre a decadência ideológica da burguesia. In: Revista Katálysis, Vol: 16, N: 1, 2013.

LUKÁCS, G. Prolegômenos para uma ontologia do ser social [1984]. São Paulo: Boitempo editorial, 2010.

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